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PSICOLOGIA DE BALCÃO

10 Julho, 2008

Mais um dia de trabalho começando. Tomara que seja mais um bom dia, com gente nova chegando e clientes antigos voltando à minha lojinha. Os fotolivros estão bombando e a personalização de festas tbm (aiaiai, vocês precisavam ver as coisas mais lindas que fiz para uma festinha de 1 aninho com o tema do Pequeno Príncipe). A “onda” agora são os fotolivros no estilo daqueles livros que contam tudo que acontecia no dia que o neném nascia. Já estou no terceiro! Cada um mais bonito que o outro.

Mas o que eu mais gosto mesmo é que a OfficeS é uma lojinha bem democrática. Aqui todo mundo é cliente…desde o vendedor de jornal no sinal aqui em frente até apresentador de telejornal capixaba. Aqui tem lugar e atenção para todo mundo!! Conheço meus clientes, chamo todos pelo nome e estou sempre a disposição de “jogar fora dois dedos de prosa”…rs. Não é difícil entrar aqui na loja e ver um cliente encostado no balcão, papeando, contando suas histórias. Acho que eles se sentem confortáveis pois sou o tipo de pessoa que gosta mais de ouvir…rs…e ouço sempre com muito prazer. Talvez pq ao invés de blábláblá, eu encare o bate papo como uma forma de aprender, de agregar experiências, de crescer.  

No meio de tantos “causos” alguns clientes viram amigos, viram confidentes…tenho, por exemplo, dois clientes que perderam filhos pequenos como eu e que, também como eu, aprendem a cada dia driblar um pouco a dor da ausência. O Seu Araújo, por exemplo, é dono de uma oficina mecânica num bairro não muito próximo daqui e, Deus sabe como, chegou aqui na loja p/ usar os serviços de voip. Numa dessas ligações ele falou sobre um filho dele que havia falecido muito rápido (menos de 1 mês) também de leucemia. Falou com o amigo sobre o descaso dos médicos, que o guri era super saudável e foi de uma hora para outra. Logo me identifiquei naquela história, mas continuei quietinha, no meu canto, fazendo meu trabalho. Sei que ele desligou o telefone chorando muito e eu ofereci um copo d’agua, pedi para que ele sentasse e ficasse calmo, disse que ele não sairia da loja enquanto ele não estivesse bem. Entre soluços ele me contou sua história e eu ouvi…passou um filme na minha cabeça pois foi tudo muito igual…até a pediatra do filho dele (que hoje é processada por negligência por ele) era a mesma do Vinícius. A equipe médica e o hospital tbm eram os mesmo…bem, ouvi, ouvi, ouvi o relato daquele pai desesperado sem dar um pio. Já era hora de fechar a loja e o Júnior chegou, mas ainda assim ouviu boa parte de tudo. No final, Seu Araújo falou que era estranho ele falar aquilo tudo, para gente que ele não conhecia e que não tinha dimensão daquela dor. Supreendentemente o Júnior falou…rs. Despejou tudo, falou do Vini, da dor, da raiva, da não aceitação. Júnior falou coisas que nem eu poderia imaginar que ele sentia. Sei que no final, o Seu Araújo disse que se sentia mais leve pq ninguém até então tinha se disposto a ouvi-lo, nem a mãe do menino. A partir daquele dia, esse cliente virou meu “paciente de balcão”…rs. Todos os dias ele vem aqui, próximo ao fechamento da loja, para conversar, para falar do filho e a gente sempre ouve. Outro dia comentei com o Júnior que achava o Seu Araújo muito carente, por isso ele aparecia sempre por aqui.

Um outro cliente, Seu Nilson, dono de uma agência de publicidade, um negro lindo de quase 2 metros de altura, botafoguense roxo, tbm perdeu um filhinho, com a idade do Vini, há 2 anos atrás, por conta de um acidente doméstico, que causou traumatismo craniano. Na missa de sétimo dia, sua esposa descobriu que estava grávida. Hoje, o Gabriel dele é apenas uma semana mais novo que o meu Gabriel. No dia que ele chegou aqui pela primeira vez, veio querendo saber sobre fotolivro. Queria fazer uma homenagem ao filho, que completaria 4 aninhos naquele mês. Aí falei com ele que ele poderia colocar fotos da esposa grávida e fazer um “histórico” até os dias de hoje, da turminha da escola, das festas, do Davi (esse era o nome) e do Gabriel juntos…Putz, vcs não podem imaginar a cena…a Ivy estava aqui e está de prova…aquele homem enorme desmontou! Começou a chorar muito e não párava…e eu ali, sem entender nada, completamente sem graça…até que ele falou  ”como eu queria que isso fosse possível…”. Aí eu entendi o porquê do choro…foi quando ele falou do que tinha acontecido, das 3 tentativas dele de se matar depois que o filho faleceu e da depressão profunda da esposa. Quando ele falou que o filho foi enterrado com o uniforme do botafogo, aí quem desabou foi eu…foi a única vez que eu chorei na frente de um dos meus “pacientes”. Seu Nilson vem pelo menos 1 vez por mês aqui, mas liga sempre para saber como estou e para falar o que está sentindo…no final dos nossos papos ele sempre brinca falando que eu deveria cobrar a consulta…rs

E é sempre assim, mesmo correndo para tirar cópias ou montando uma arte, sempre tem cliente pendurado no balcão, me mostrando todos os dias que gente boa tbm tem sua cruz para carregar…são histórias lindas, historias de amor, histórias de perdas, histórias de superação que poderiam preencher um livro! Acho que é isso que torna o que eu faço ainda mais gostoso…acredito que isso tbm ajuda a me confortar. E é isso, se tem alguém por estas bandas e quiser se pendurar no balcão para contar seus causos, pode vir que estou aqui…rsrs

Um beijo

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