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PARA ANA, COM AMOR.

27 Agosto, 2008

Oi, meninas, desculpem a demora em postar, mas ando enrolada demais. Prometo que amanhã escrevo para vcs, falando das aventuras da pintura do quarto da Larissa, com direito à fotos. Mas hoje, eu queria conversar com a Ana, visitante aqui do blog, que deixou um comentário lá no post sobre a psicologia de balcão.

Oi, Ana!

Acredito que seja a primeira vez que a gente converse. Não lembro de vc nos blogs anteriores: o marinheira, que escrevi por quase 4 anos e o pequeno marujo, que escrevi por 8 meses. Como deletei os dois blogs numa tentativa, frustrada que fique bem claro, de me “afastar” da minha própria história, não tenho nem como te pedir que vc leia para entender um pouco sobre mim, sobre meus filhos, enfim, sobre tudo que aconteceu.

Mas pode deixar que vou ser breve, até pq nos posts do meu jardim florido já dá para sentir um pouquinho o que passo. Sou carioca da gema e capixaba de coração, faço 31 anos agora em outubro, sou mãe do Vinícius, que no próximo dia 06/09 completa 4 aninhos (sim, ele completará….meu coração não consegue enxergar de outra maneira), sou mãe do Gabriel, um menininho que nasceu prematuro apenas 1 mês e 2 dias depois que o irmão faleceu, portador, de uma forma bem leve, de uma síndrome chamada Noonan e que está com 1 ano e 3 meses e mãe da Larissa, que está há 33 semanas no meu barrigão e deve nascer em outubro. Sou uma pessoa como outra qualquer, com mil contas para pagar, com outras tantas preocupações, com alguma experiência de vida, enfim, nada me faz diferente de vc ou de qualquer outra amiga do blog. Talvez o que chame um pouco mais de atenção, seja o fato de ter enterrado um filho, a pessoinha que eu mais amo no mundo. Acho que o que levou tanta gente (mais de 3 milhões de pessoas) a acessarem o blog da marinheira foi pq o blog começou qdo descobri que estava grávida de um meninão saudável e lá o pessoal acompanhou o crescimento do Vini, suas peripécias, a minha felicidade, até que ele adoeceu do nada e em 45 dias faleceu (destes, ele ficou quase 30 em coma), com os melhores prognósticos possíveis, deixando um vácuo que nunca se apagará.

A doença que levou meu filho, LLA (beta-cala positiva), é a mesma que levou o seu Gabriel. Meu filho partiu há 1 ano, 4 meses e 13 dias e tenho certeza que, se daqui há 30 anos, eu estiver por aqui, sentirei a mesma dor, a mesma falta que senti quando senti seu abraço gelado, de um corpinho sem vida, pela última vez. A dor, Ana, é algo que não dá para descrever, vc bem sabe disso. Dói no fundo, dói fisicamente, é como se tivessem arrancado o nosso coração e ainda assim, por algum motivo, continuamos vivos, respirando.  Assim como o seu filho, o meu tbm era um menino lindo, extremamente saudável, amado demais, cativante…e o câncer acabou com ele, deformou meu menininho loiro. Juro para vc que não lembro da fisionomia dele dentro do caixão, acho que meu pensamento apagou essa imagem, mas sei que era assustadoramente diferente do rostinho sorridente que vc vê no topo deste blog.

Meu mundo perdeu completamente o sentido. Minha vida mergulhou numa escuridão sem fim. Se existe o fundo do poço, posso dizer com todas as letras que eu cheguei lá e cavei mais um pouquinho para cair mais um pouco. A morte prematura do Vinícius tirou de mim a minha verdadeira alegria, o meu sorriso espontâneo, aquela coisa gostosa que a gente só dá valor quando perde: a alegria de viver. Por quantas vezes me peguei reclamando que era infeliz pq não estava com o peso que queria, pq não tinha grana para ir num restaurante badalado, pq queria ir ao shopping e gastar horrores… Hoje eu sou simpática, hoje eu continuo sorrindo, mas um sorriso que me custa caro, um sorriso que é mais forte do que eu, pq se eu fosse seguir realmente a minha vontade, eu tinha morrido junto com o Vinícius. Tbm tenho a sensação que ele me deixou, que ele foi embora…no dia que ele morreu, eu fiquei preocupada, pensando como é que ele chegaria sozinho no céu…meu Deus, ele só tinha 2 aninhos e 7 meses e era super apegado a mim, andava de mãozinha dada comigo sempre pq tinha medo de ficar sozinho…como é que ele iria chegar num lugar estranho, sozinho, para passar o resto da eternidade dele, sem mim, sem o pai ou sem a vovó? Até hoje quando eu páro para pensar, eu sofro.    

E olha que, como você eu tentei me matar e pelo mesmo motivo: acabar com a dor. Parece que esse passa a ser o sentido da nossa vida, né? Eu preciso parar de sofrer e eu só paro de sofrer no dia que eu morrer. Eu não tentei nem uma nem duas vezes….eu tentei várias vezes. A última foi no Natal…qdo me tranquei no quarto e escrevi uma carta para o Júnior e outra para o Gabriel, me desculpando por ser fraca e egoísta. Enrolei o cabo do carregador do celular no pescoço e apertei ao máximo…daí não aconteceu nada pq eu sabia que não era forte suficiente para levar minhas ” estratégias de suicídio” até o fim. Chorei muito e pedi desculpas ao Vinícius, por não conseguir ir ao encontro dele, mas no fundo, eu sabia que a morte para mim não era o melhor caminho.

Decidi viver…pelo Vini, pelo Gabriel, pelo meu esposo e pela minha mãe. Não era justo não ser mãe do Gabriel. Ele não pediu para nascer, ele não tem culpa pela morte do irmão e o mínimo que eu poderia ser para ele era a mesma mãezona boba que fui para o Vinícius. Não era justo abandonar o Júnior, que sempre foi a minha palmeira forte, o meu porto seguro, no meio da dor, com um filho pequeno para criar. Não era justo fazer minha mãe enterrar um filho tbm. Afinal, ela sofreu muito por me ver sofrer e por ver o netinho que ela tanto desejou partir. O Vinícius não decidiu acabar com a vida, ele lutou até o último minuto por ela. Não era correto eu decidir acabar com a minha…eu tinha que lutar tbm até o último minuto. Por isso desejei engravidar da Larissa: era uma nova esperança de vida para mim. Era mais um “compromisso” que eu assumia com a vida, mais um motivo para querer ficar viva. Essa foi a minha escolha.

Tanto eu, como vc, Ana, sabemos o quanto é difícil levantar da cama e achar graça no mundo depois que o nosso mundo perde o que tinha de mais belo. Mas tenha certeza, minha querida, que o seu Gabriel te quer aqui e não do lado dele. Não é a sua hora…eu tbm não aceito a morte do meu filho, não vou aceitar nunca, mas eu estou aprendendo que isso daqui tudo é um até breve. Hoje falta menos um dia para eu encontrá-lo fisicamente, falta menos que ontem…então vou curtir o Biel, vou curtir a Larissa pq estamos aqui numa passagem curtíssima. Enxergo o Vini em tudo que vejo: seja numa flor que ele achava linda, seja olhando o mar, para quem ele mandava beijos, até aqui na loja, onde ele nunca pôs os pés eu consigo imaginar ele surtando por conta dos computadores, que ele amava brincar. O meu Vinícius é para mim a mais linda tradução do amor, da vida e não da morte e da tristeza. É lógico que eu daria tudo para ouvi-lo dizer que me amava mais uma vez, me chamar de mamãe mais uma vez, ganhar um beijinho ou um upa mais uma vez. Mas, por mais que os anos passem, eu vivi tudo isso e tudo que passamos juntos ninguém tem o poder de tirar.

Então, Ana, enxergue o amor, enxergue a vida que seu filho Gabriel foi para você. Ele lutou até o fim, por mais que doa, lute também. Estou aqui, aliás, estamos todas aqui, todas as meninas aqui do blog, juntas contigo. Sinta-se abraçada por uma mãe de um anjo como o seu. Precisando gritar, desabafar, chegue aqui sem medo. Esse cantinho aqui é de todos nós.

Um beijo

Renata

LIDANDO COM O LUTO E COM PESSOAS ENLUTADAS

11 Julho, 2008

 Oi, pessoal!

Tomei o maior susto quando vi o número de visitantes!! Quanta gente já passou por aqui!! Vcs não imaginam como é bacana ver que vcs ainda lembram da gente! Olha, continuo lendo os comentários, continuo aprendendo muito com vocês, mas queria ”dedicar” o post de hoje a Lali, que deixou um comentário ontem aqui. Oh, mas vou logo explicando, apesar do título, não é intenção minha ensinar nada a ninguém, nem deixar clima triste, não é nada disso…ela perguntou e eu vou responder, até pq a dúvida dela é tão comum…convivo com isso todos os dias…meus pais, por exemplo, não sabem lidar com isso…

Mas vamos deixar de lenga-lenga e vamos logo aos “justamentes” como diria meu amigo Juvenal Antena…rsrs

Uma vez ouvi uma música chamada “O Romance da Universitária Otária” do grupo Blitz que dizia: “todo mundo que ir pro céu mas ninguém quer morrer”. É mais ou menos isso…A idéia de ir pro céu é ótima, mas quem lembra de que é preciso morrer antes? O maior erro do ser humano é achar que está preparado para lidar com a morte, mas a morte é um tipo de ”coisa” que só acontece com os outros. No dia que acontece dentro da sua casa, vc fica completamente perdido. A gente, erroneamente, acha que está preparado para enterrar nossos pais e não os nossos filhos, que isso foge a ordem natural das coisas…isso é balela, em qualquer relacionamento baseado em amor, pai-filho, filho-pai, neto-avô, marido-mulher, amigo-amigo, com certeza, a dor é a mesma. Isso eu aprendi aqui, no balcão, com meus clientes. Sempre aparece filhos que não conseguiram superar a dor de perder um pai ou uma mãe, ao ponto de não enxergar os filhos que estão aqui ainda ou de amigos que perderam amigos que eram quase irmãos. Definitivamente, perder não é algo que a gente tenha se acostumado a gostar ou aceitar.

Eu acredito que o maior problema em lidar com o luto e com a pessoa enlutada é justamente pq as pessoas teimam em forçar uma barra, um clima, tipo assim “vamos falar coisas engraçadas para que fulano sorria”. É aí que o povo se embanana todo, piora a situação e cria constrangimentos. Ei, perdi um filho, dói demais, mas sou a Renata, aquela que rala pra caramba, mãe tbm do Gabriel e da Larissa, tenho muitas coisas bacanas no meu conteúdo, que vão além do falecimento de um filho. Se estou na sua casa falando de trabalho, pode ter certeza que é pq eu quero falar de trabalho, se estou conversando sobre casamento, é pq eu quero falar de casamento, se estou falando do Vinícius, é pq o Vinícius continua sendo meu filho e quero falar dele. As pessoas, naquela necessidade louca de ajudar, criam nessas horas um lastro enorme, tentam disfarçar o que não dá para disfarçar, tentam mudar de assunto.

Se eu pudesse enumerar o que me irrita (acho que irrita a qualquer enlutado) seria mais ou menos assim:

1- Olhar de pena. Gente, fala sério…isso é horrível! Não quero que as pessoas olhem para mim e pensem “coitadinha, ela perdeu um filho e estava grávida de um que é especial”. O que aconteceu, tornando tudo mais claro, é que a hora do Vinícius era aquela. É lógico que não era a hora que EU queria, mas era a hora dele. Fiz o que pude, fiz tudo, daria minha vida mil vezes, mas tinha que ser assim e ponto. Oi, estou aqui, viva, amando, gerando mais um filho, batalhando.  

2- Envolver Deus em todas as coisas.  Acho que na falta de saber o que dizer, as pessoas falam bobagens e envolvem Deus no momento errado. Tinha acabado de enterrar um filho e uma pessoa chegou e me disse: “Veja como Deus sabe das coisas…tirou um filho, mas te deu outro!”. Tipo assim, me dá essa bala que eu te trago um pirulito. Isso contribuiu muito para criar dúvidas na minha cabeça sobre Deus. Eu pensava “que Deus é esse que faz isso com uma mãe tão amorosa, com uma pessoa legal como eu?”. Não vou ficar pregando, mas está lá na Bíblia um trecho que fala que quem segue a Deus não está livre de carregar suas cruzes. Eu ouvi muita abobrinha, teve gente que disse que “Deus estava me poupando de sofrimentos…que o Vinícius poderia ser um delinquente e tals”. Ei, mas eu queria ter a oportunidade de educá-lo, de me surpreender, de me decepcionar, de me alegrar…Deus não poderia decidir isso. Hoje, com a cabeça mais no lugar, sei que sou uma pessoa muito abençoada e minha relação com Deus está ótima. Então, jamais, never, fique falando que Deus fez isso ou aquilo para quem está vivendo um luto. Um abraço ou um “conte comigo para qualquer coisa” vale muito mais.

3- O esquecimento. Meu pai, no dia das mães, enviou um buquê lindo para ela com um cartão. Na dedicatória assinou o nome de todos, inclusive da Larissa, mas não citou o nome do Vinícius. Eu vi e fiquei quieta, pensando exatamente que tudo tinha voltado ao normal e que o Vinícius era uma página virada. Fiquei triste demais…mas minha irmã, sem eu falar nada, teve a sensibilidade de escrever  “e Vinícius também”. Minha mãe pediu que eu fizesse um calendário e colocasse a foto da família toda. Ela nem precisou dizer que era para incluir a foto do Vini pq eu sei que meu filho, entre nós ou acima de nós, faz parte da família. E ele está lá, na cozinha dela, sorridente e lindo junto com toda a galera. No Natal, comprei flores lindas e levei para o seu jazigo (lógico que queria levar um playstation para ele detonar, mas essa não é a minha história). No dia que fez 1 ano que ele faleceu, levei um outro arranjo lindo. Em setembro, no aniversário dele, vou levar os brinquedos que eu daria para ele para as crianças em tratamento. É a minha maneira de “comemorar” a existência dele. Quando eu vejo algo que me faz lembrar dele, eu não deixo de falar: nossa, isso é a cara do Vini! Assim como quando vejo algo que me faz lembrar do Biel eu tbm falo: caraca, o Biel aqui iria surtar..rs. E agora, quando vejo coisas cor de rosa, cheia de babados, já imagino como a Larissa vai ficar linda ali dentro! Tenham certeza que isso não me entristece…aos olhos dos outros meu filho morreu, mas para mim ele é vivo e presente e vai continuar sendo meu guri loirinho a vida inteira. Meu filho nunca vai ser uma página virada, a memória dele nunca vai se apagar…ele é a parte mais bonita e perfeita de mim.

4 – Frases feitas / tempo. Chega de “saudades sim, tristeza não” e “o tempo cura”. O tempo não cura, a saudade aumenta. É hipócrita dizer que não se deve sentir tristeza…sinta-se triste quando tiver vontade, chore, grite, dê uns socos na parede, vomite tudo…faz bem. Coloque tudo para fora. Depois, com certeza, dá para respirar fundo e tocar em frente.   

Se eu pudesse resumir que atitudes são bacanas, citaria sem sombra de dúvidas a palavra RESPEITO. Se eu quero chorar, me deixem chorar, não exijam o contrário, respeitem a minha vontade. Se eu quero falar com saudosismo dele, me deixem falar…é muito bom falar de quem a gente ama, falar do maior tesouro que a gente pode ter. Outra coisa legal é SABER OUVIR…ouça com atenção pois a maior necessidade de um enlutado é se fazer ouvir. Quando eu tocava no nome do Vini, meus pais ficavam brancos, sem graça, cortavam o assunto e isso me entristecia muito pq eu só queria que alguém me ouvisse. Por isso me jogava de cabeça no blog…lá eu escrevia, escrevia, muitas vezes lia coisas muito bacanas e, tantas outras, lia coisas completamente desrespeitosas.  

Então Lali, espero que tenha te ajudado. Ouça a Patrícia, respeite a vontade dela de falar da filha e mostre para ela que a Maria faz parte da vida e vai continuar fazendo. Entenda que a morte é uma passagem…a Maria está ali, junto com meu Vini, esperando a hora de dar um abraço na mãe. E tenha certeza, amiga, o que move um enlutado é isso…saber que um dia a gente vai se reencontrar.

Bjo