Oi, meninas, desculpem a demora em postar, mas ando enrolada demais. Prometo que amanhã escrevo para vcs, falando das aventuras da pintura do quarto da Larissa, com direito à fotos. Mas hoje, eu queria conversar com a Ana, visitante aqui do blog, que deixou um comentário lá no post sobre a psicologia de balcão.
Oi, Ana!
Acredito que seja a primeira vez que a gente converse. Não lembro de vc nos blogs anteriores: o marinheira, que escrevi por quase 4 anos e o pequeno marujo, que escrevi por 8 meses. Como deletei os dois blogs numa tentativa, frustrada que fique bem claro, de me “afastar” da minha própria história, não tenho nem como te pedir que vc leia para entender um pouco sobre mim, sobre meus filhos, enfim, sobre tudo que aconteceu.
Mas pode deixar que vou ser breve, até pq nos posts do meu jardim florido já dá para sentir um pouquinho o que passo. Sou carioca da gema e capixaba de coração, faço 31 anos agora em outubro, sou mãe do Vinícius, que no próximo dia 06/09 completa 4 aninhos (sim, ele completará….meu coração não consegue enxergar de outra maneira), sou mãe do Gabriel, um menininho que nasceu prematuro apenas 1 mês e 2 dias depois que o irmão faleceu, portador, de uma forma bem leve, de uma síndrome chamada Noonan e que está com 1 ano e 3 meses e mãe da Larissa, que está há 33 semanas no meu barrigão e deve nascer em outubro. Sou uma pessoa como outra qualquer, com mil contas para pagar, com outras tantas preocupações, com alguma experiência de vida, enfim, nada me faz diferente de vc ou de qualquer outra amiga do blog. Talvez o que chame um pouco mais de atenção, seja o fato de ter enterrado um filho, a pessoinha que eu mais amo no mundo. Acho que o que levou tanta gente (mais de 3 milhões de pessoas) a acessarem o blog da marinheira foi pq o blog começou qdo descobri que estava grávida de um meninão saudável e lá o pessoal acompanhou o crescimento do Vini, suas peripécias, a minha felicidade, até que ele adoeceu do nada e em 45 dias faleceu (destes, ele ficou quase 30 em coma), com os melhores prognósticos possíveis, deixando um vácuo que nunca se apagará.
A doença que levou meu filho, LLA (beta-cala positiva), é a mesma que levou o seu Gabriel. Meu filho partiu há 1 ano, 4 meses e 13 dias e tenho certeza que, se daqui há 30 anos, eu estiver por aqui, sentirei a mesma dor, a mesma falta que senti quando senti seu abraço gelado, de um corpinho sem vida, pela última vez. A dor, Ana, é algo que não dá para descrever, vc bem sabe disso. Dói no fundo, dói fisicamente, é como se tivessem arrancado o nosso coração e ainda assim, por algum motivo, continuamos vivos, respirando. Assim como o seu filho, o meu tbm era um menino lindo, extremamente saudável, amado demais, cativante…e o câncer acabou com ele, deformou meu menininho loiro. Juro para vc que não lembro da fisionomia dele dentro do caixão, acho que meu pensamento apagou essa imagem, mas sei que era assustadoramente diferente do rostinho sorridente que vc vê no topo deste blog.
Meu mundo perdeu completamente o sentido. Minha vida mergulhou numa escuridão sem fim. Se existe o fundo do poço, posso dizer com todas as letras que eu cheguei lá e cavei mais um pouquinho para cair mais um pouco. A morte prematura do Vinícius tirou de mim a minha verdadeira alegria, o meu sorriso espontâneo, aquela coisa gostosa que a gente só dá valor quando perde: a alegria de viver. Por quantas vezes me peguei reclamando que era infeliz pq não estava com o peso que queria, pq não tinha grana para ir num restaurante badalado, pq queria ir ao shopping e gastar horrores… Hoje eu sou simpática, hoje eu continuo sorrindo, mas um sorriso que me custa caro, um sorriso que é mais forte do que eu, pq se eu fosse seguir realmente a minha vontade, eu tinha morrido junto com o Vinícius. Tbm tenho a sensação que ele me deixou, que ele foi embora…no dia que ele morreu, eu fiquei preocupada, pensando como é que ele chegaria sozinho no céu…meu Deus, ele só tinha 2 aninhos e 7 meses e era super apegado a mim, andava de mãozinha dada comigo sempre pq tinha medo de ficar sozinho…como é que ele iria chegar num lugar estranho, sozinho, para passar o resto da eternidade dele, sem mim, sem o pai ou sem a vovó? Até hoje quando eu páro para pensar, eu sofro.
E olha que, como você eu tentei me matar e pelo mesmo motivo: acabar com a dor. Parece que esse passa a ser o sentido da nossa vida, né? Eu preciso parar de sofrer e eu só paro de sofrer no dia que eu morrer. Eu não tentei nem uma nem duas vezes….eu tentei várias vezes. A última foi no Natal…qdo me tranquei no quarto e escrevi uma carta para o Júnior e outra para o Gabriel, me desculpando por ser fraca e egoísta. Enrolei o cabo do carregador do celular no pescoço e apertei ao máximo…daí não aconteceu nada pq eu sabia que não era forte suficiente para levar minhas ” estratégias de suicídio” até o fim. Chorei muito e pedi desculpas ao Vinícius, por não conseguir ir ao encontro dele, mas no fundo, eu sabia que a morte para mim não era o melhor caminho.
Decidi viver…pelo Vini, pelo Gabriel, pelo meu esposo e pela minha mãe. Não era justo não ser mãe do Gabriel. Ele não pediu para nascer, ele não tem culpa pela morte do irmão e o mínimo que eu poderia ser para ele era a mesma mãezona boba que fui para o Vinícius. Não era justo abandonar o Júnior, que sempre foi a minha palmeira forte, o meu porto seguro, no meio da dor, com um filho pequeno para criar. Não era justo fazer minha mãe enterrar um filho tbm. Afinal, ela sofreu muito por me ver sofrer e por ver o netinho que ela tanto desejou partir. O Vinícius não decidiu acabar com a vida, ele lutou até o último minuto por ela. Não era correto eu decidir acabar com a minha…eu tinha que lutar tbm até o último minuto. Por isso desejei engravidar da Larissa: era uma nova esperança de vida para mim. Era mais um “compromisso” que eu assumia com a vida, mais um motivo para querer ficar viva. Essa foi a minha escolha.
Tanto eu, como vc, Ana, sabemos o quanto é difícil levantar da cama e achar graça no mundo depois que o nosso mundo perde o que tinha de mais belo. Mas tenha certeza, minha querida, que o seu Gabriel te quer aqui e não do lado dele. Não é a sua hora…eu tbm não aceito a morte do meu filho, não vou aceitar nunca, mas eu estou aprendendo que isso daqui tudo é um até breve. Hoje falta menos um dia para eu encontrá-lo fisicamente, falta menos que ontem…então vou curtir o Biel, vou curtir a Larissa pq estamos aqui numa passagem curtíssima. Enxergo o Vini em tudo que vejo: seja numa flor que ele achava linda, seja olhando o mar, para quem ele mandava beijos, até aqui na loja, onde ele nunca pôs os pés eu consigo imaginar ele surtando por conta dos computadores, que ele amava brincar. O meu Vinícius é para mim a mais linda tradução do amor, da vida e não da morte e da tristeza. É lógico que eu daria tudo para ouvi-lo dizer que me amava mais uma vez, me chamar de mamãe mais uma vez, ganhar um beijinho ou um upa mais uma vez. Mas, por mais que os anos passem, eu vivi tudo isso e tudo que passamos juntos ninguém tem o poder de tirar.
Então, Ana, enxergue o amor, enxergue a vida que seu filho Gabriel foi para você. Ele lutou até o fim, por mais que doa, lute também. Estou aqui, aliás, estamos todas aqui, todas as meninas aqui do blog, juntas contigo. Sinta-se abraçada por uma mãe de um anjo como o seu. Precisando gritar, desabafar, chegue aqui sem medo. Esse cantinho aqui é de todos nós.
Um beijo
Renata